Desabafo

Hoje não venho falar de comida, venho desabafar um pouco.

Há poucas semanas, mudei de terra. Sou Algarvia de gema, nascida e criada na bela cidade de Lagos. Os meus pais já não partilham a minha costela algarvia, o meu pai é da Bairrada, crescido em Angola; a minha mãe é Angolana e Portuguesa, nascida e criada em Angola. Somos 5 filhos, nascidos em Lagos.

Mudei de terra, vim mais para o Oeste. Sai do Algarve, não porque não gosto da minha terra, mas porque às vezes sabe bem mudar. Queríamos um sítio mais calmo e verde. Uma mudança positiva na vida de um casal apaixonado. Apaixonados por esta terra linda, limpa e de gentes gentis. Mas, ontem, pela primeira vez na minha vida, senti preconceito à minha pessoa, preconceito ao local onde nasci e cresci.

Há duas semanas que me mudei para esta Vila, fomos bem recebidos, as pessoas são simpáticas, gentis. Na primeira semana, dediquei-me a arrumar a casa, preparar currículos. Na segunda semana, comecei a procurar trabalho, o dinheiro do fundo não dura para sempre e não me mudei para ficar sentada a ver o tempo passar.

Ontem, fui a uma entrevista de trabalho, marcada para as 19 horas. Estava nervosa e ansiosa. Esse sentimento foi rapidamente transformado por aborrecimento, sendo que esperei 1 hora e 5 minutos para ser entrevistada. Com sorrisos e um aperto de mão, fui recebida e encaminhada para uma sala para começarmos então a bendita entrevista.

Mal começamos, o senhor quis saber de onde eu era. E eu, orgulhosa como sempre, digo com confiança: “Do Algarve, Lagos. Bela terra, conhece?”

Quando para meu espanto a sua resposta foi nada mais, nada menos que: “Odeio o Algarve. Não fique ofendida com as minhas palavras, mas odeio o Algarve e os algarvios. Não sabem trabalhar, roubam aos estrangeiros e só trabalham 3 meses por ano para não fazerem nada no Inverno.” -“Cada vez mais, os nortenhos têm que ir para o Algarve trabalhar, porque os Algarvios só sabem se encostar, e la vamos nós vos salvar o turismo.” -“Os bons trabalhadores são excelentes no Norte, e à medida que vamos descendo no país, os trabalhadores são piores. Norte em primeiro com os melhores, centro já começam a fraquejar, Alentejo ainda pior e Algarve são uns inúteis.” Arregalei os olhos, e senti uma pontada no estômago. Continuou o seu monólogo sobre o quanto odeia o Algarve e que antigamente os amigos falavam tão mal desta terra, que o fez odiar cada vez mais.

Meia hora disto, MEIA HORA, de insultos ao meu Algarve. Mas, eu fui desculpada por ser Algarvia, porque tendo pais não algarvios, não fazia de mim uma Algarvia Preguiçosa, Sem Noção Do Que É Trabalhar A Sério, Uma Ladra (que se aproveita dos turistas para chular à força toda, chupar o tutano), não sou uma Algarvia Verdadeira, como tão eloquentemente explicou-me esta aberração numa entrevista de trabalho.

Passado Uma Hora de entrevista, eu já não sabia como reagir, só queria sair dali para fora. Defendi a minha terra, podia ter defendido melhor. Não tenho desculpa, mas nunca havia passado por tal coisa. Doeu-me, sabem?

O orgulho deste homem, que se diz homem do norte, bairrista (disse-me com toda a sua convicção) era de tal enorme, o ego deste senhor era podre, mas cheio. Conheço muita gente do norte, centro, sul e nunca fui de tal modo insultada.

Brincadeiras, todos nós o fazemos. Lembro-me do meu amigo que me chamava de moura e eu a ele de tripeiro, são brincadeiras. Mas esta amostra de gente usou a palavra Ódio muitas vezes, na mesma frase, as mãos tremiam e o rosto contorcia de raiva quando pronunciava a palavra Algarve.

Respirei fundo. No fundo do meu ser, espero que não me telefone a dizer que fiquei com o emprego. Mas, se for seleccionada, não poderei dizer que não. São apenas 6 meses de contracto, passariam num instante. Mas, pergunto-me, o que faço a este sentimento de pura tristeza e dor que sinto?

Como posso eu aceitar ser enxovalhada numa entrevista de trabalho que se baseou apenas num monólogo sobre o ódio a uma região que me viu crescer, amar, sorrir, chorar, trabalhar? Quero acreditar que não será sempre assim. Quero acreditar que posso fazer desta vila a minha casa, sem ter medo de dizer de onde sou.

 

Lúcia

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About Lucy Sophie Rose

Reacendi a paixão pela cozinha, após uma lesão que me levou a ficar em casa. Pôr a música alta, fechar a porta e cozinhar, fazer bolos, tartes, seja o que for que me apeteça fazer naquele momento. Pois é um momento só meu que irei partilhar com B. no final.
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4 Responses to Desabafo

  1. Que tristeza :/ boa sorte

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  2. It's Ella! says:

    Boa sorte Rose! E sorte é aparecer outra coisa e nunca mais teres de interagir com esse traste outra vez.

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  3. Que triste saber que ainda existem pessoas tão amargas assim! Eu , particularmente não iria para esse trabalho, não vale um tostão! Tenho a certeza que encontrarás várias oportunidades! Confie! Beijins

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